O expediente que não termina: por que o corpo da mulher continua em alerta depois que ela chega em casa

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O expediente que não termina: por que o corpo da mulher continua em alerta depois que ela chega em casa

A queixa de que “não consigo desligar” tem base fisiológica — e explica por que tanta gente dorme oito horas e acorda sem ter descansado.

Ela chega em casa às sete e meia da noite, senta no sofá pela primeira vez no dia e percebe que o corpo não acompanha. O coração segue acelerado, a mandíbula continua travada, a cabeça já está montando a lista de amanhã. Ela dormirá em algumas horas, mas a sensação é de que alguém esqueceu de desligar um motor. A frase que traz ao consultório é quase sempre a mesma: “Doutora, eu não consigo desligar.” E ela diz isso como se fosse um defeito de caráter.

Não é. E aqui há um dado que raramente chega ao debate público. Pesquisas que acompanham a variação dos hormônios do estresse ao longo do dia mostram algo consistente: entre trabalhadoras, os níveis permanecem elevados depois do fim do expediente, enquanto entre trabalhadores homens esses níveis caem com rapidez assim que o trabalho termina. Mesma jornada, mesma empresa, curvas fisiológicas diferentes. O corpo dela simplesmente não recebe o sinal de encerramento.

A razão é objetiva. Para boa parte das mulheres, sair do trabalho não marca o fim das demandas — marca a troca de um turno por outro. Não existe intervalo entre a última reunião e a primeira pergunta sobre o jantar, entre o relatório enviado às 18h e a lição de casa do filho às 19h. Sem transição, o organismo não tem o que interpretar como fim de ciclo. Ele apenas muda de tarefa e permanece ativado.

Soma-se a isso um tipo de trabalho que não aparece em lugar nenhum: a vigilância antecipatória. É a parte da cabeça que, mesmo com a pessoa sentada, segue monitorando o remédio que acaba na quinta, a consulta que precisa ser remarcada, a reunião da escola, o aniversário que ninguém lembrou. Esse monitoramento consome recurso fisiológico real. E ele não desliga porque, objetivamente, ainda existe algo a ser monitorado.

O problema é que a recuperação humana acontece justamente nas horas em que esse sistema deveria estar desligado. Quando o estado de alerta se estende noite adentro, o início do sono atrasa, a arquitetura do sono se fragmenta e a fase mais restauradora encurta. A pessoa cumpre as oito horas na cama e acorda sem reparo. No dia seguinte, começa com menos tolerância para a mesma carga — e a carga não diminuiu. É assim que o ciclo se fecha sobre si mesmo.

Uso no consultório uma pergunta simples, que costuma ser mais reveladora do que qualquer questionário: quanto tempo o seu corpo leva para desacelerar depois do último compromisso do dia? Quando a resposta é “ele não desacelera”, já não estamos diante de um problema de organização de agenda. Estamos diante de um sistema de alerta que perdeu a capacidade de se desligar sozinho, e isso tem consequência clínica.

A partir dos 40, esse quadro ganha um agravante. As oscilações hormonais próprias da perimenopausa já tornam o sono mais fragmentado e reduzem a margem de recuperação disponível. Quando essa transição se encontra com um organismo que atravessa a noite em estado de vigilância, o resultado não é cansaço somado — é cansaço multiplicado. Muitas mulheres descrevem exatamente isso: a mesma vida de sempre, subitamente insuportável.

Do que ajuda, três coisas são consistentes. A primeira é criar uma transição real entre as jornadas, ainda que curta — caminhar do estacionamento até em casa sem o telefone, tomar banho antes de assumir o segundo turno, qualquer marco que sinalize ao corpo que um ciclo terminou. Não é bem-estar decorativo: é sinalização fisiológica. A segunda é proteger o fim da noite de trabalho e de telas, porque cada e-mail respondido às 23h reativa o sistema inteiro. A terceira, e mais importante, é redistribuir demanda — nenhum ritual de encerramento sobrevive a uma carga que não cabe no dia.

Vale distinguir duas coisas que costumam ser confundidas: desligar e se distrair. Terminar a noite rolando a tela no sofá dá a sensação de pausa, mas mantém o sistema em estímulo constante, com informação nova a cada segundo e picos de ativação a cada notificação. O corpo não registra aquilo como repouso. Ele registra como mais um turno, agora sem propósito. Muitas pacientes descrevem exatamente isso: passaram três horas “descansando” e foram dormir mais cansadas do que quando sentaram.

Manter o organismo em alerta por meses seguidos também deixa marcas além do humor. A regulação do estresse conversa diretamente com pressão arterial, controle de glicemia, resposta imunológica, apetite e memória de trabalho. É por isso que tantas mulheres nessa situação chegam ao consultório com uma coleção de queixas aparentemente desconexas — pressão que começou a subir, resfriados de repetição, esquecimentos, alterações intestinais — cada uma tratada por um especialista diferente, sem que ninguém tenha perguntado como está o fim das noites dela.

Quando a exaustão persiste mesmo com esses ajustes, o lugar da queixa é o consultório, não a autoajuda. “Não consigo desligar” não é falta de disciplina. É a descrição precisa de um corpo que nunca recebeu permissão para encerrar o dia — e um corpo que não encerra o dia não se recupera à noite.

Dra. Rochelle Marquetto é médica psiquiatra — CRM-RS 39448 · RQE 43138 — e atua com abordagem integrativa no cuidado de quadros de esgotamento. Contato: (21) 96832-9009.

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