Meu nome é João Francisco de Assis Neto. Nasci e cresci em Periperi, no subúrbio de Salvador. Foi ali que aprendi a sonhar, mesmo quando a vida parecia empenhada em me ensinar a desistir.
Aos 13 anos, sofri racismo. A dor daquele episódio me levou a ler o Estatuto da Criança e do Adolescente. Descobri, então, que a injustiça podia ser enfrentada com conhecimento. Nascia ali o desejo de defender pessoas.
O caminho até a advocacia foi longo. Por causa da minha cor e da minha origem, enfrentei preconceitos que deixaram marcas. Já me confundiram com segurança de shopping por estar de paletó. Fui despejado, fiquei desempregado e, num momento de dificuldade, até me convidaram a roubar. Havia dias em que eu mal sabia como recomeçar. Ainda assim, escolhi estudar e seguir em frente.
Fui comerciante e policial militar antes de me tornar advogado criminalista, professor, palestrante e autor. Cada conquista carrega um pouco das noites difíceis que vivi e das pessoas que acreditaram em mim. Tenho orgulho da minha trajetória, mas sei que nenhum título me coloca acima dos meus erros.
Em 2025, vivi um dos capítulos mais dolorosos da minha vida. Durante uma discussão com minha então companheira, ao tentar retirá-la do meu apartamento, agi com imprudência. Reconheço minha conduta e assumo a responsabilidade pelas consequências daquele momento. Sustento que não tive a intenção de agredi-la e que não a agredi. Isso, porém, não diminui a dor causada pela situação nem me dispensa de reconhecer que deveria ter agido com serenidade e respeito.
Ela própria já afirmou que nunca foi agredida por mim e que a acusação surgiu em um momento de forte emoção e raiva. Menciono isso sem lhe atribuir culpa. Cabia a mim interromper a discussão e preservar a dignidade de ambos. Falhei naquele instante.
Também perdi uma mulher extraordinária. Carinhosa, amorosa, dedicada, íntegra, inteligente e trabalhadora, ela merece ser lembrada por tudo o que é, e não exposta ou julgada pelo episódio mais triste da nossa história. Guardo por ela admiração e gratidão.
Peço desculpas pela minha imprudência e pela dor que causei. Não espero que estas palavras apaguem o passado, nem as escrevo para exigir perdão. Escrevo porque preciso olhar com honestidade para o que aconteceu e aprender a agir melhor.
Sigo dedicado à minha família, à advocacia e ao ensino. O menino de Periperi que um dia precisou recomeçar tantas vezes continua aqui. Hoje, sei que superar também exige reconhecer os próprios erros, respeitar a dor do outro e trabalhar, todos os dias, para ser um homem melhor.
Dr. João Neto
Advogado, mestre em Ciências Criminais, professor e ex-policial militar.




