O caso de Paolla Oliveira expõe uma discussão que vai muito além da estética: quando olhar para um corpo deixa de ser opinião e passa a ser um diagnóstico sem consulta
Por Dra. Daniele Dominoni — Nutricionista Integrativa CRN 8 10836
Quando uma mulher famosa muda de corpo, a internet rapidamente encontra muitas explicações.
Foi o que aconteceu com Paolla Oliveira, que já relatou publicamente o impacto dos comentários sobre seu corpo e contou ter recebido, nas redes sociais, opiniões de pessoas que chegaram a atribuir diagnósticos à sua aparência, inclusive a hipótese de lipedema.
Até que ponto estamos tentando diagnosticar corpos femininos apenas pelo que vemos?
Existe uma situação pouco conhecida pela população: o Lipedema. Por isso essa pergunta é tão importante .
Uma fotografia não mostra dor, sensibilidade, histórico familiar, facilidade para desenvolver hematomas, evolução dos sintomas, composição corporal, alterações hormonais ou tantos outros elementos necessários para uma avaliação clínica.
Por isso, afirmar que uma mulher tem lipedema apenas observando seu corpo não é ciência.
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico e depende da avaliação da história da paciente, dos sinais e sintomas e do exame físico, além da exclusão de outras condições que podem apresentar características semelhantes.
O lipedema é uma condição caracterizada por uma distribuição desproporcional do tecido adiposo, geralmente em membros inferiores e, em alguns casos, também nos membros superiores, podendo estar associado a dor, sensibilidade, sensação de peso e facilidade para hematomas.
E existe uma diferença fundamental: lipedema e obesidade são condições bem diferentes, embora também uma pessoa possa ser obesa e também ter lipedema.
O consenso internacional mais recente reforça que o lipedema não deve ser considerado uma condição causada pela obesidade. Ao mesmo tempo, uma mulher com lipedema também pode apresentar excesso de peso ou obesidade, situação que precisa ser tratada individualmente.
Não estamos dizendo que alimentação, exercício ou controle de peso não são importantes, mass reconhecendo que nem todo volume corporal responde da mesma maneira às mesmas estratégias.
Uma mulher pode perder peso e continuar apresentando desproporção em determinadas regiões do corpo.
Pode fazer atividade física regularmente e continuar sentindo peso ou desconforto nas pernas.
Pode cuidar da alimentação e perceber que determinadas áreas respondem de maneira diferente do restante do organismo.
São exatamente esses casos que precisamos investigar melhor sinais e sintomais.
O problema começa quando uma mulher passa anos acreditando que seu corpo é resultado exclusivamente de falta de disciplina e em muitos casos não é.
Depois dos 40, essa conversa ganha ainda mais importância
Na fase da perimonopausa a mulher passa por diversas mudanças hormonais que pode impactar ainda mais a mulher que tem lipedema, assim também como gestação, pos parto e menopausa.
É justamente por isso que não podemos olhar para a mulher depois dos 40 apenas pela perspectiva do peso.
É necessário observar os hormônios, massa muscular, composição corporal, metabolismo , sono, alimentação , intestino, se pratica atividade física, histórico familiar, sintomas, controle de stresse, qualidade de vida .
Nesta fase precisamos compreender, se possível , ajustar as novas estratégias e não julgar.
Existe tratamento — mas não existe fórmula única
Muitas mulheres sentem que com o diagnostico de lipedema estarão condenadas a sentirem dor, inchaço, e corpo desproporcional. Mas calma, pois hoje temos muitas estratégias para melhora do lipedema
Atualmente, o tratamento pode envolver uma abordagem multidisciplinar, de acordo com as características e necessidades de cada paciente.
Nutrição, atividade física, fisioterapia e estratégias para controle dos sintomas podem fazer parte do cuidado. Em casos selecionados, procedimentos cirúrgicos também podem ser considerados por equipes especializadas.
Na nutrição não existe dieta milagrosa, mas sim uma nutrição terapêutica que melhora saúde metabólica, composição corporal, controle de peso quando indicado e qualidade de vida, dentro de uma estratégia individualizada.
E isso é especialmente importante porque uma mulher com lipedema não deixa de ser uma mulher com necessidades nutricionais próprias, objetivos próprios e uma vida que precisa ser considerada em sua totalidade.
A discussão sobre o corpo feminino não precisa ser proibida.
Precisamos, sim, falar sobre saúde, envelhecimento, obesidade, composição corporal, menopausa, lipedema e qualidade de vida.
O que precisamos abandonar é a falsa ideia de que conseguimos compreender tudo isso olhando alguns segundos para uma fotografia.
O caso de Paolla Oliveira é emblemático justamente porque mostra como a fronteira entre opinião e diagnóstico pode desaparecer rapidamente nas redes sociais.
Uma pessoa olha., interpreta e comenta. E, em poucos segundos, aquilo pode ganhar aparência de verdade.
Mas diagnóstico não é comentário de internet.
Diagnóstico exige história clínica, avaliação, conhecimento técnico e responsabilidade.
O maior aprendizado que o debate sobre lipedema possa nos trazer seja justamente este:
O corpo feminino precisa ser compreendido antes de ser julgado.
Especialmente depois dos 40, quando a mulher começa uma nova etapa da vida e precisa olhar para saúde, força, metabolismo, hormônios e longevidade de uma maneira mais ampla.
A ciência já nos mostra que existem diferenças importantes entre condições que, durante muito tempo, foram colocadas no mesmo lugar.
Agora precisamos aprender a fazer o mesmo com nosso olhar.
Porque uma mulher não é um número na balança., e muito menos um diagnóstico feito por desconhecidos nas redes sociais.
Ela é uma história clínica, biológica e humana — e merece ser tratada como tal.
Dra. Danele Dominoni- CRN 8 10836
Nutricionista Integrativa




