Na contramão dos diagnósticos: estamos tratando pessoas ou classificando comportamentos?

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Por Dra. Valéria Modestto Barbosa – Médica

Neuropediatra e Neurofisiologia clínica

Uma criança que agitada, impulsiva, desorganizada muitas vezes recebe o diagnóstico de TDAH. Outra, com dificuldades de comunicação e interação social, é investigada para autismo. Um adulto exausto, desatento e sobrecarregado pode receber diferentes diagnósticos na vida.

Mas será que estamos compreendendo o cérebro dessas pessoas ou apenas dando nomes aos seus comportamentos?

Após mais de três décadas dedicadas à Neurologia, aprendi que o diagnóstico pode ser fundamental para orientar o tratamento, mas não explica, sozinho, a complexidade de um ser humano.

Foi dessa inquietação que nasceu meu livro Na contramão dos diagnósticos.

Vivemos uma época de reconhecimento dos transtornos do neurodesenvolvimento e das condições relacionadas à saúde mental. Entretanto, identificar sintomas não significa compreender suas origens, seus mecanismos ou suas repercussões na vida de cada indivíduo.

O cérebro não funciona isoladamente. Seu desenvolvimento é influenciado por fatores genéticos, metabólicos, ambientais, emocionais e pelas experiências acumuladas ao longo da vida.

Uma dificuldade de atenção, por exemplo, pode estar associada a diferentes condições. Alterações do sono, ansiedade, dificuldades de aprendizagem e transtornos do neurodesenvolvimento podem produzir manifestações semelhantes, embora exijam abordagens distintas.

É nesse ponto que a neurociência nos convida a ampliar o olhar.

Os avanços da neurofisiologia, como a eletroencefalografia quantitativa, tomografias e ressonâncias elétricas do cérebro  permitem investigar aspectos da organização funcional do cérebro. Essas ferramentas acrescentam informações à avaliação clínica, sem substituir os critérios diagnósticos estabelecidos.

Em minha trajetória, acompanhando crianças, adolescentes, adultos e idosos, percebi que compreender o funcionamento cerebral exige mais do que reconhecer uma lista de sintomas.

É preciso investigar a história antes da concepção e como está se passando o neurodesenvolvimento, o ambiente familiar, as condições de saúde, as experiências emocionais e aquilo que torna cada pessoa única.

O diagnóstico deve abrir caminhos, não estabelecer limites.

Quando uma criança recebe um diagnóstico, sua história não termina ali. Começa uma oportunidade de compreender suas necessidades, reconhecer potencialidades e construir estratégias individualizadas de cuidado.

Meu convite, neste livro, não é abandonar os diagnósticos, mas questionar a superficialidade com que, por vezes, são utilizados.

Precisamos ir além da pergunta “qual transtorno essa pessoa tem?” e acrescentar outra: “o que está acontecendo com esse cérebro e como podemos ajudar essa pessoa a desenvolver seu potencial?”

Porque, antes de existir um diagnóstico, existe uma história. E nenhuma história humana cabe inteiramente dentro de uma classificação.

Dra. Valéria Modestto Barbosa é médica neuropediatra, neurofisiologia clínica e autora do livro Na contramão dos diagnósticos.

Dra. Valéria Modestto

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