O mesmo produto, outro sabor: o que muda quando comemos na Itália

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Depois de 27 anos vivendo na Itália, algumas diferenças já se tornaram tão naturais para mim que muitas vezes só volto a percebê-las quando converso com brasileiros ou quando o assunto aparece durante uma aula.

E isso acontece muito quando falamos de comida.

Quem chega à Itália logo percebe que nem tudo aquilo que parece igual é realmente igual. Às vezes é a mesma marca, a mesma embalagem, praticamente o mesmo produto — mas o sabor é diferente. A Fanta é um bom exemplo: a bebida vendida na Itália e aquela comercializada no Brasil não possuem exatamente a mesma formulação.

Mas as diferenças não param nos produtos industrializados.

A farinha é outro universo. No supermercado italiano encontramos farina 00, farina 0, integrale, semola rimacinata. Para um brasileiro recém-chegado, não basta traduzir farina como farinha: é preciso descobrir qual comprar e para quê.

Existem também aquelas diferenças que percebemos simplesmente vivendo entre os dois países. O sal parece salgar de maneira diferente. Algumas frutas parecem amadurecer ou estragar mais rapidamente. Um creme ou doce para passar no pão pode ter sabor e textura diferentes daquele que conhecíamos. Pequenas coisas que fazem alguém perguntar: “Mas por que aqui é diferente?”

Nem sempre existe uma única resposta.

Brasil e União Europeia possuem legislações próprias para alimentos, rotulagem, aditivos e defensivos agrícolas. Existem ingredientes e limites regulatórios que não são necessariamente os mesmos nos dois mercados. Há também diferenças de matérias-primas, processos de fabricação, receitas adaptadas ao consumidor local e hábitos alimentares.

É por isso que gosto tanto quando esse assunto aparece nas minhas aulas de italiano.

Uma embalagem pode virar material de estudo. O aluno aprende palavras como ingredienti, conservanti, coloranti, scadenza, provenienza, zuccheri. Descobre o que significa senza zuccheri aggiunti. Aprende a diferença entre da consumare entro e da consumarsi preferibilmente entro. E, enquanto aprende italiano, começa também a entender como aquele país se relaciona com a comida.

Porque alimentação também é cultura.

A língua italiana está na receita da avó, no cardápio do restaurante, na conversa com o vendedor, na feira, no supermercado e nas informações escritas no verso de uma embalagem.

É esse tipo de descoberta que procuro levar para o Italiano Per Sempre.

Ensinar uma língua, para mim, não é ensinar apenas como se diz determinada palavra. É ajudar o aluno a compreender o que aquela palavra significa dentro da vida de quem mora naquele país.

Depois de quase três décadas na Itália, muitas dessas diferenças já fazem parte da minha rotina. Hoje posso transformá-las em conhecimento para quem está começando esse caminho.

Porque aprender italiano também passa pela mesa.

E é exatamente isso que quero dizer quando afirmo:

“Eu não ensino só italiano. Eu ensino você a viver em italiano.”

Tatiana de Medeiros Demetrio
Professora e fundadora do Italiano Per Sempre

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