Dr. Dorival Ricci Junior – Médico Expert em Tratamento de Pós-Covid
CRM-PR 18.090 | RQE 23.016 / 23.035
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A maioria das pessoas supera a Covid-19 em poucos dias ou semanas. Para outras, porém, o fim da infecção marca apenas o início de uma nova doença. Meses depois do teste negativo, persistem um cansaço avassalador, dificuldade de concentração, intolerância ao esforço físico e perda importante da capacidade para atividades antes rotineiras.
Essa condição, conhecida como Covid longa, já afeta milhões de pessoas em todo o mundo e representa um dos maiores desafios da medicina contemporânea. Durante algum tempo, a ausência de alterações em exames convencionais levou muitos pacientes a ouvir que “estava tudo normal”. Hoje, a ciência mostra que normal não significa necessariamente saudável.
Um estudo publicado na EClinicalMedicine, revista do grupo The Lancet, reforça essa mudança de paradigma. Pesquisadores avaliaram um modulador metabólico desenvolvido para melhorar a produção de energia pelas células em pacientes cuja principal manifestação da Covid longa era a fadiga persistente.
https://www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(23)00123-2/fulltext
Os resultados merecem uma leitura cuidadosa. O medicamento não atingiu o principal objetivo biológico do estudo, que era demonstrar melhora da função mitocondrial medida por uma sofisticada técnica de ressonância magnética. Em ciência, esse é um dado importante. Mas outro resultado chamou atenção: os pacientes tratados apresentaram redução significativa da fadiga em comparação ao grupo placebo, sem eventos adversos graves.
Pode parecer um paradoxo, mas não é. Muitas vezes, a experiência do paciente revela benefícios que ainda não conseguimos explicar completamente por meio de exames laboratoriais ou de imagem. A medicina baseada em evidências considera tanto os marcadores biológicos quanto os desfechos que realmente importam para quem convive com a doença: recuperar energia, autonomia e qualidade de vida.
Mais importante do que avaliar um medicamento específico, o estudo fortalece uma hipótese cada vez mais consistente: a Covid longa pode estar relacionada a alterações do metabolismo energético celular, especialmente da função das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia necessária ao funcionamento de todos os órgãos. Quando esse sistema falha, o organismo passa a responder ao menor esforço como se suas reservas estivessem permanentemente esgotadas.
Ainda não existe tratamento definitivo para a Covid longa. O próprio estudo reconhece que pesquisas maiores são indispensáveis para confirmar seus resultados. Mas toda grande transformação na medicina começa quando uma hipótese deixa de ser especulação e passa a ser sustentada por evidências.
A principal mensagem talvez seja esta: a fadiga da Covid longa não é sinônimo de fraqueza, falta de motivação ou consequência exclusivamente emocional. Trata-se de uma condição biológica complexa, que começa a revelar seus mecanismos e, com isso, abre caminho para terapias mais eficazes no futuro.
Compreender essa realidade é o primeiro passo para oferecer aos pacientes algo tão importante quanto um tratamento: reconhecimento, acolhimento e esperança fundamentada na ciência.





